Nosso Segredo por Daniela

Convidamos a Daniela, 44 anos, produtora rural, para contar um pouco do que acontece nos bastidores da fazenda, onde tudo começa. Segue o fio! 

Entrevistador - Daniela, me conta, quem são as pessoas que frequentam e moram aqui na fazenda no dia-a-dia?

 

Daniela - Temos o caseiro/peão Luciano e Poliana que são casados, estão há 7 anos trabalhando lá. Nós moramos em Uberlândia, vamos toda sexta-feira, e voltamos domingo à tarde.

 

Entrevistador - Há quanto tempo vocês vivem na fazenda?

 

Daniela - Compramos a fazenda há 15 anos.

 

Entrevistador - O que vocês produzem aqui na fazenda? 

 

Daniela - Nossa principal renda vem do leite. Realizamos ordenha às 7:00 e 17:00 horas.

 

Entrevistador - Poderia nos contar um pouquinho sobre as atividades que cada um de vocês ficam encarregados por aqui?

 

Daniela - Cuidar das plantas frutíferas, dar frutas para os porquinhos, dar comida na boca das vacas, brincar com os bezerrinhos, colher frutas para trazer para a cidade, e claro, fazer muitas postagens no Instagram.

 

Entrevistador - Quais são as atividades favoritas aqui na fazenda?

 

Daniela - Chegar na fazenda na sexta-feira é sempre uma alegria. Levamos o Hulk (nosso cachorro) para passear, organizamos o jantar e dormimos bem cedo. No sábado é dia de limpeza, preparar bolo, pão, queijo, doces… só delícias. No domingo é dia de andar na fazenda visitando as represas, os bezerrinhos que nasceram, as frutas que maduraram, pegar frutas para as vacas e os porquinhos. Serviços não faltam! A Rafinha é a que mais se diverte tomando leite no curral, levanta cedo para tirar leite, segundo ela. Hoje ela está com 10 aninhos. Para nossa família, passar os finais de semana na fazenda é a melhor parte.

Trabalhamos muito, mas gostamos muito de ficar lá.

 

Entrevistador - Me conte um pouco de como é o dia-a-dia de vocês aqui.

 

Daniela - O que a Rafaela mais gosta de fazer é brincar, né? Com as vacas, dar comida na boca delas, brincar com os os bezerrinhos. Isso aí a gente sabe que ela gosta demais, isso faz muito bem pra ela. Também apanhamos as frutas, e vendemos no supermercado. Agora inclusive é época de manga, trazemos bastante coisa. Já vendemos queijo, pegando para fazer no final de semana, mas como dava muito trabalho preferimos parar de produzir. 

A gente sempre tem coisas para fazer e que gera resultado. Não sobrevivemos do dinheiro que vem da fazenda, o que produzimos mantém o lugar e nossas idas e vindas, o que não fica barato, mas vamos todos os finais de semana com todo o prazer. 

 

Entrevistador - Vocês sempre viveram aqui na fazenda?

 

Daniela - Nós moramos em Uberlândia, e passamos os finais de semana na roça.

 

Entrevistador - O que fez vocês tomarem a decisão de deixar a cidade e vir viver aqui na roça?

 

Daniela - Nós tomamos a decisão de comprar a fazenda, né? Eu trabalho em Uberlândia, tenho uma academia, então eu trabalho muito durante a semana. Meu marido tem junto com os irmãos cinco supermercados. O nosso estresse durante a semana é muito grande e ter ido pra fazenda foi uma forma de deixar as coisas mais leves, uma vida diferente da confusão que é a nossa vida durante a semana, né? É muito gratificante ir para a fazenda e levar as nossas filhas. 

 

Entrevistador - O que mantém vocês vivendo da fazenda? Quais são as motivações?

 

Daniela - O bem-estar, nossa cabeça aliviada dos problemas aqui da cidade. Então, quando a gente vai pra lá, a gente vai para um lugar que é nosso, onde nós decidimos o que fazer, é muito prazeroso. É um lugar que a gente vai mesmo para poder descansar e ter outras atividades, pegar um coco e tomar ele fresquinho, né? Chupar manga no pé, pescar… E assim, eu eu não tenho ninguém que me ajuda dentro de casa, sou eu que faço, eu que preparo as refeições. É muito gratificante, principalmente depois da pandemia, foi durante ela que passamos a ir mais pra fazenda, se tornando nosso refúgio. 

 

Entrevistador - Vocês têm vizinhos próximos? Conta um pouquinho de como é a relação de vocês, se costumam se encontrar e o que costumam fazer.

 

Daniela - Nós temos muitos vizinhos porque a nossa fazenda é bem pequenininha. Um deles inclusive é meu primo, o Eval, que está lá bem próximo da gente. Somos uma comunidade, né? Temos o terço uma vez por mês, então nós nos encontramos. A gente se organiza para isso, e temos a festa junina também. Então assim, a comunidade é bem presente e a gente se reúne bastante. Apesar de não morarmos na fazenda como os nossos vizinhos moram, frequentamos direitinho os eventos e muitas das coisas que acontecem nas reuniões da cooperativa. O pessoal é bem unido e isso é um ponto positivo, é o que faz a gente gostar de estar junto, faz bastante diferença.

 

Entrevistador - Na sua opinião, quais são as maiores diferenças entre as pessoas que moram na fazenda e as pessoas que moram na cidade?

 

Daniela - Na cidade as pessoas correm muito, elas não tem muito tempo, estão sempre com pressa, né? Tem que ir no banco, tem que ir trabalhar, tem que ir buscar as crianças na escola, é uma confusão. Vejo que na fazenda as pessoas estão mais tranquilas, os horários são diferentes, as pessoas levantam mais cedo, dormem mais cedo. O nível de estresse das pessoas é bem diferente. Quando eu chego para conversar com as vizinhas, que sempre encontramos e em sua maioria são mais velhas, percebemos muito isso, até no jeito de conversar. Percebemos essa discrepância porque trabalhamos com pessoas, tanto no supermercado quanto na academia. Através dessa diferença conseguimos notar como as pessoas da fazenda e da cidade lidam com situações de jeitos completamente distintos.

 

Entrevistador - Geralmente as pessoas que vivem ou passam mais tempo na “roça” possuem muitas histórias para contar, sejam elas engraçadas, curiosas, emocionantes… quando te falo isso, quais são as histórias que lhe vêm à cabeça?

 

Daniela - Aconteceu algo emocionante, desesperador, na verdade. Há mais ou menos um ano atrás, estávamos fazendo a limpeza no sábado de manhã e a Rafaela sumiu. A gente começou a dar falta dela e foi procurar. De repente chegou um carro com um casal dentro, eles entraram e perguntaram se eu era a mãe da Rafaela e eu quase morri. Falei que sim e eles me disseram que ela tava quase chegando na estrada, e nossa fazenda tem apenas 3km de estrada de terra até a rodovia. Entrei no carro com eles e lá estava ela, andando descalço na terra fofinha, toda feliz. Graças a essas pessoas abençoadas, que cederam uma pessoa para ficar com a Rafaela até eles irem nos avisar. Eles disseram que a Rafaela apontava para a nossa fazenda e dizia que a mamãe estava lá. Então fui com eles no carro e voltei com ela andando. Passei um susto danado, muitas pessoas da comunidade ficaram sabendo, inclusive. Serviu de lição para todos, né? Graças a Deus não aconteceu nada, mas poderia. Voltamos para a fazenda e eu fui explicando que não poderia fazer aquilo e tudo mais.  

 

Outra história curiosa é de quando meu marido falava muito sobre vender a fazenda, bem no comecinho, devido às dificuldades que passávamos na época. Mas eu não me sentia confortável com isso, e um dia fiquei muito brava e disse que se ele quisesse vender, era para vender logo então! Ele se assustou e nunca mais tocou nesse assunto. A lição foi que se tivéssemos desistido da fazenda pelas dificuldades, não teríamos nosso refúgio hoje, o lugar que amamos e que nos faz feliz.

 

É satisfatório conhecer mais uma família produtora e se encantar com as diferenças únicas entre elas e seus vínculos com a fazenda e produção. Tudo tem um motivo para continuar existindo, e hoje aprendemos como a persistência durante as dificuldades pode trazer bons frutos no futuro. E que a fazenda, além de gerar produção, é um espaço especial para as famílias!

 

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